PENSAMENTO
- Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.
POESIA
ARTE DE AMAR
-
Metidos nesta pele que nos refuta,/
Dois somos, o mesmo que inimigos. /
Grande coisa, afinal, é o suor /
(Assim já o diziam os antigos): /
Sem ele, a vida não seria luta, /
Nem o amor amor. /
POEMA Á BOCA FECHADA
Não direi: /
Que o silêncio me sufoca e amordaça. /
Calado estou, calado ficarei, /
Pois que a língua que falo é de outra raça. /
Palavras consumidas se acumulam, /
Se represam, cisterna de águas mortas, /
Ácidas mágoas em limos transformadas, /
Vaza de fundo em que há raízes tortas. /
Não direi: /
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, /
Palavras que não digam quanto sei /
Neste retiro em que me não conhecem. /
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, /
Nem só animais bóiam, mortos, medos, /
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam /
No negro poço de onde sobem dedos. /
Só direi, /
Crispadamente recolhido e mudo, /
Que quem se cala quando me calei /
Não poderá morrer sem dizer tudo. /
José Saramago
, jornalista, dramaturgo, contista, romancista, escritor e poeta português, nasceu em 16.11.1922, em Tías, e faleceu em Lanzarote, no dia 18.06. 2010. Escritor de inúmeras obras literárias de sucesso, foi com o romance “Ensaio Sobre a Cegueira”, que o premiado autor ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1998.

Com o romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991), José Saramago conta a história humanizada da vida de Jesus, critica a religião e fala de sua eventual relação com Maria Madalena, cuja obra foi censurada e vetada de se inscrever para concorrer em concurso literário por "atentar contra a moral cristã".
À esse propósito, transcevemos os seguintes esclarecimentos:
“O livro conta uma história humanizada da vida de Jesus e alude a uma sua eventual relação com Maria Madalena (no livro, foi com ela que Jesus "conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem").[1] Ao adoptar essa perspectiva, de humanização de Cristo, distante da representação tradicional do Evangelho e evidenciando o seu caráter frágil e vulnerável, Saramago coloca que a propagada história da crucificação de Jesus, "um revulsivo forte, qualquer coisa capaz de chocar as sensibilidades e arrebatar os sentimentos",[2] resultou na imposição de "uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas",[3] de acordo com a sua visão de mundo, segundo a qual “por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel",[4] e que, "no fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las".[5] Isso levou a que o livro fosse considerado ofensivo por diversos sectores da comunidade católica, a que ele sofresse perseguição religiosa em seu próprio país,[6] e a que o governo português, pressionado pela Igreja Católica[7] e por meio do então Subsecretário de Estado adjunto da Cultura de Portugal, Sousa Lara, vetasse este livro de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio literário europeu por "atentar contra a moral cristã".
Em reacção a este acto do Subsecretário de Estado, que considerou censório, Saramago abandonou Portugal, passando a residir na ilha de Lanzarote, Ilhas Canárias[9], onde permaneceu até a sua morte.
(Fonte - http://pt.wikipedia.org)
(Fotos - Internet)